"O ensaio é a ambiguidade consciente. A pureza, sente-a como violência, a sua lei é sempre mais a do hibridismo, da travestização genológica. Pode haver nele uma vontade (potentia) de ficção, de poesia, de dramatismo.
Assim, cada ensaio é um texto singular, a que nunca se conseguirá chegar com uma sistemática dos géneros."
"Em cada ensaio genuíno há bolsas de silêncio, suspensões da significação, bolhas em que o leitor pode respirar, interrogar, espantar-se, adivinhar. É «o texto inesgotável das nossas contradições» (Diderot), eterno preâmbulo que abre o apetite, cria o desejo - e o suspende."
"O ensaísta escreve frequentemente, com as suas obsessões e os seus temas recorrentes, um único ensaio contínuo - como alguns poetas, ou mesmo prosadores com forte componente reflexiva, da estirpe de uma Maria Gabriela Llansol, cuja obra é um único rio de escrita, um espaço de textualidade contínua. É muitas vezes assim nos ensaístas natos - Eduardo Lourenço, George Steiner, Jacques Derrida, Walter Benjamin, obviamente Montaigne. Como o fragmento romântico, o ensaio apresenta então uma configuração rigorosamente delimitada, mas não fechada, progredindo até ao infinito através da auto-reflexão e do desdobramento contínuo de núcleos de significação estáveis (e de marca subjectiva inconfundível) no mar de magma mutante da conceptualidade livre com que aborda os seus objectos."
João Barrento em "O Género Intranquilo - anatomia do ensaio e do fragmento"
Assírio & Alvim, Setembro de 2010
Páginas 26, 27, 35, 46 e 47
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