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sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Há muito tempo atrás, havia um brâmane chamado Ravi que examinava sempre a sua mente. Sempre que um mau pensamento surgia, punha de lado um seixo negro e, sempre que um bom pensamento surgia, punha de lado um seixo branco. No início, todos os seixos que pôs de lado eram negros. Depois, à medida que perseverou em desenvolver antídotos e em adoptar acções positivas e rejeitar as negativas, chegou um momento em que os seus montes de seixos negros e brancos eram iguais. No fim tinha apenas seixos brancos. É assim que devemos desenvolver acções positivas como um antídoto com atenção e vigilância e não nos contaminarmos sequer com as mais pequenas acções nocivas."



"O Caminho Da Grande Perfeição" de Patrul Rinpoche
Ésquilo, Setembro 2007
Página 178

sexta-feira, 1 de março de 2019

Emoção e Dor

"Siddhartha também tentava cortar o sofrimento pela raiz. Mas não inventava soluções como desencadear uma revolução política, emigrar para outro planeta ou criar uma nova economia mundial.
Não pensava sequer em criar uma religião ou desenvolver códigos de conduta que trouxessem paz e harmonia. Investigou o sofrimento com um espírito aberto e, mediante a sua contemplação infatigável, descobriu que, na raiz, são as nossas emoções que conduzem ao sofrimento. Na verdade, elas são sofrimento. De um modo ou de outro, directa ou indirectamente, todas as emoções nascem do egoísmo, no sentido em que implicam apego ao eu. Além disso, ele descobriu que, por mais reais que pareçam ser, as emoções não são uma parte inerente do nosso ser. Não são inatas, nem são alguma espécie de maldição ou implante que alguém ou algum deus tenha introduzido em nós. As emoções surgem quando determinadas causas e condições se reúnem, como quando nos precipitamos pensando que alguém nos critica, ignora ou despoja de algum ganho. Surgem então as emoções correspondentes. No momento em que aceitamos essas emoções, no momento em que as adquirimos, perdemos a consciência e a sanidade. Ficamos em efervescência. Deste modo, Siddhartha encontrou a sua solução: consciência. Se desejamos eliminar verdadeiramente o sofrimento, devemos desenvolver a consciência, vigiar as nossas emoções e aprender como evitar entrar em efervescência.
Se examinarmos as emoções como fez Siddhartha, se tentarmos identificar a sua origem, descobriremos que se enraízam num equívoco e estão, portanto, viciadas. Todas as emoções são uma forma de preconceito; em cada emoção há sempre um elemento de juízo.
(...)
Enquanto acreditarmos que tais coisas existem verdadeiramente - momentaneamente ou para toda a eternidade -,  a nossa crença enraíza-se numa má compreensão. Esta má compreensão nada mais é do que ausência de consciência. E quando não há essa consciência, os budistas chamam a isso ignorância. É desta ignorância que emergem as nossas emoções.
(...)
Uma insondável variedade de emoções existe neste reino mundano. A cada momento, inumeráveis emoções são geradas com base nos nossos juízos falsos, preconceitos e ignorância. Estamos familiarizados com amor e ódio, culpa e inocência, devoção, pessimismo, ciúme e orgulho, medo, vergonha, tristeza e alegria, mas há muito mais. Algumas culturas têm palavras para emoções que noutras culturas são indefinidas e portanto não existem. Em algumas partes da Ásia, não há uma palavra para o amor romântico, ao passo que os espanhóis possuem numerosas palavras para diferentes tipos de amor. Segundo os budistas, há inúmeras emoções que não estão ainda definidas em nenhuma língua e mais ainda que estão para além da lógica capacidade de definição do nosso mundo. Algumas emoções são aparentemente racionais, mas a maioria é irracional. Algumas emoções aparentemente pacíficas enraízam-se na agressão. Algumas são quase imperceptíveis. Podemos pensar que alguém é completamente impassível ou desapegado, mas isso é em si mesmo uma emoção.
(...)
A ignorância consiste simplesmente em não conhecer os factos, conhecer os factos de modo erróneo ou conhecê-los de forma incompleta. Todas estas formas de ignorância conduzem a incompreensão e má interpretação, a sobrestimar e subestimar."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Construção e Impermanência

"Se não há papel, não há livro. Se não há água, não há gelo. Se não há início, não há fim. A existência de um depende muito do outro, por conseguinte, a verdadeira independência não existe. Devido à interdependência, se um componente - a perna de uma mesa, por exemplo - sofre uma pequena mudança que seja, então a integridade do todo está comprometida e torna-se instável. Ainda que pensemos poder controlar a mudança, a maior parte do tempo isso não é possível por causa das incontáveis influências que desconhecemos e das quais não temos consciência. E, por causa desta interdependência, a desintegração de todas as coisas, no seu estado corrente ou original, é inevitável. Toda a mudança contém em si um elemento de morte. Hoje é a morte de ontem.
(...)
Mantendo a consciência dos fenómenos compostos, tornamo-nos conscientes da interdependência. Reconhecendo a interdependência, reconhecemos a impermanência. E, quando recordamos que as coisas são impermanentes, há menos probabilidades de nos deixarmos escravizar por suposições, crenças rígidas (tanto religiosas como seculares), sistemas de valores ou fé cega. Tal consciência impede-nos de sermos apanhados em todos os tipos de dramas pessoais, políticos e relacionais. Começamos a saber que as coisas não estão e nunca estarão inteiramente sob o nosso controlo e assim não há expectativa de que se passem de acordo com as nossas esperanças e medos. Não há ninguém para acusar quando as coisas correm mal porque existem inúmeras causas e condições a responsabilizar. Podemos dirigir esta tomada de consciência das regiões mais afastadas das nossas imaginações até a níveis subatómicos. Nem nos átomos nos podemos fiar.
(...)
Podemos pensar que os políticos liberais e de esquerda são políticos iluminados, mas eles podem ser de facto a causa do fascismo e dos skinheads, sendo complacentes e promovendo mesmo a tolerância para com os intolerantes, ou protegendo os direitos individuais daqueles cujo único fim é destruir os direitos individuais das outras pessoas. A mesma imprevisibilidade aplica-se a todas as formas, sensações, percepções, tradições, amor, confiança, desconfiança e cepticismo - mesmo às relações entre mestres espirituais e discípulos, e entre os homens e os seus deuses.
Todos estes fenómenos são impermanentes. Consideremos o cepticismo, por exemplo. Houve uma vez um canadiano que incarnava acerrimamente um céptico. Gostava de assistir a ensinamentos budistas, a fim de poder discutir com os mestres. Sendo na verdade bastante versado na filosofia budista, os seus argumentos eram fortes. Deleitava-se com a oportunidade de citar o ensinamento budista de que as palavras de Buda devem ser analisadas e não pressupostas como verdadeiras. Alguns anos mais tarde, tornou-se o devoto seguidor de um famoso médium. O céptico senta-se diante do seu guru, com lágrimas correndo dos olhos como rios, devoto a uma entidade que não tem uma ponta de lógica para oferecer. Fé ou devoção têm a conotação geral de ser inabaláveis, mas, tal como o cepticismo e todos os fenómenos compostos, são impermanentes.
(...)
Reconhecer a instabilidade de causas e condições leva-nos a compreender o nosso próprio poder de transformar obstáculos e tornar possível o impossível. Isto é verdadeiro em todas as áreas da vida. Se não temos um Ferrari, podemos bem criar as condições para ter um. Enquanto houver um Ferrari, há a oportunidade de possuirmos um. De igual modo, se queremos viver mais, podemos escolher parar de fumar e fazer mais exercício. Há uma esperança razoável. O desespero - tal qual, o seu oposto, a esperança cega - é o resultado de uma crença na permanência.
Podemos transformar não apenas o nosso mundo físico, mas também o nosso mundo emocional, convertendo, por exemplo, a agitação em paz mental, mediante o abandono da ambição, ou convertendo um baixo amor-próprio em confiança, mediante uma acção movida pela bondade e pela filantropia. Se todos nos determinarmos a colocar os nossos pés nos sapatos dos outros, cultivaremos a paz nas nossas casas, com os nossos vizinhos e com os outros países."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"O budista é aquele ou aquela que aceita as seguintes quatro verdades:
 
- Todas as coisas compostas são impermanentes
- Todas as emoções são dor
- Nenhuma coisa existe em si e por si
- O nirvana transcende os conceitos
 
Mas o que é que não faz de nós budistas?
 
- Se não podemos aceitar que todas as coisas compostas ou fabricadas são impermanentes, se acreditamos que há alguma substância ou conceito essencial que seja permanente, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todas as emoções são dor, se acreditamos que efectivamente algumas emoções são puramente agradáveis, então não somos budistas.
 
- Se não podemos aceitar que todos os fenómenos são ilusórios e vazios, se acreditamos que certas coisas existem de modo inerente, então não somos budistas.
 
- E se pensamos que o despertar existe nas dimensões do tempo, espaço e poder, então não somos budistas.
 
Deste modo, o que faz de nós budistas? Podemos não ter nascido num país budista ou numa família budista, podemos não usar túnicas ou rapar a cabeça, podemos comer carne e idolatrar Eminem e Paris Hilton. Isso não significa que não possamos ser budistas. Para sermos budistas, temos de aceitar que todos os fenómenos compostos são impermanentes, que todas as emoções são dor, que todas as coisas não têm existência inerente e que o despertar transcende os conceitos.
Não é necessário estar constante e perpetuamente atento a estas quatro verdades, mas elas devem residir na nossa mente. Não andamos constantemente a recordar o nosso próprio nome, mas, quando alguém nos pergunta, recordamo-lo instantaneamente. Não há dúvida. Qualquer pessoa que aceite estes quatro selos, mesmo independentemente dos ensinamentos do Buda, mesmo nunca tendo ouvido o nome do Buda Shakyamuni, pode considerar que está no mesmo caminho que ele."

Dzongsar Jamyang Khyentse  em "O Que Não Faz De Ti Um Budista"